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Contribuições críticas do feminismo negro para o empoderamento das mulheres

por Cláudia Pons Cardoso Professora adjunta da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Artigo do livro Feminismos Plurais (org. Fábrica de Imagens) Clique e baixe gratuitamente


“As mulheres negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o discurso clássico sobre a opressão da mulher não tem reconhecido, assim como não tem dado conta da diferença qualitativa que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem na identidade feminina das mulheres negras. Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas... Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar!”

Sueli Carneiro (2001. p. 1)


A epígrafe que abre este ensaio apresenta a crítica da filósofa brasileira Sueli Carneiro (2001) à mulher universal do feminismo hegemônico. Sua crítica é compartilhada por sujeitos subalternizados pela interseção de gênero, raça, sexualidade e classe social, que buscam descolonizar o feminismo ocidental centrado na concepção de “sujeito único do feminismo”, historicamente construído como referente.


Ao mesmo tempo em que realiza a crítica, Carneiro (2001) resgata, da invisibilidade forçada pela violência epistêmica, fragmentos da história das mulheres negras na diáspora negra. Segundo a autora, as mulheres negras não foram constituídas nas sociedades colonizadas da mesma forma que as mulheres brancas, por isso destaca-se a importância das diferentes experiências e trajetórias das mulheres, contra as relações patriarcais nas sociedades, servirem de fonte de inspiração e reflexão para a elaboração de novos conhecimentos, propositores de novas relações entre os seres humanos e desses com o mundo.


Considerando os argumentos da autora brasileira, procuro aqui refletir acerca dos diferentes sujeitos dos feminismos. Em especial, abordo o feminismo negro e suas proposições para atender às demandas apresentadas pelas mulheres no enfrentamento do racismo, do sexismo e da heteronormatividade.


Relações de gênero patriarcais racializadas


O lugar social das mulheres negras da diáspora foi historicamente organizado por relações de gênero racializadas e, nas palavras da filósofa argentina Lugones (2008, p. 82), “somente ao perceber gênero e raça como entrelaçados ou fundidos indissociavelmente podemos realmente ver as mulheres de cor”. Para a autora, o corpo, o sexo e o próprio gênero foram construídos racializadamente e determinadas construções de gênero operaram produzindo diferentes realidades –consequentemente, diferentes formas de violências para as mulheres, mas nem sempre percebidas, porque se referem aos sujeitos não dominantes, assim como aos que fogem à heterossexualidade compulsória.


Algumas lutas empreendidas pelas mulheres brancas – como o empenho em ingressar no mercado de trabalho – eram específicas das mulheres dos grupos hegemônicos, pois as limitações causadas pelas relações de gênero racializadas impuseram outras realidades às mulheres não brancas. Como bem adverte a teórica Lemos (2006, p. 64), “enquanto as feministas brancas ‘foram à luta’ para entrar no mercado de trabalho, há mais de 500 anos se explorava a mão de obra das mulheres negras. Por isso elas exigiam direitos trabalhistas, e não o direito de trabalhar”.


Tais afirmações, em absoluto, não desqualificam as ações daquelas mulheres para adentrarem no mundo do trabalho, tampouco tornam seus feminismos menos legítimos/importantes. Mostram somente a necessidade de investigação do que está subjacente à categoria “mulher” e às relações de gênero geradas por ela, na medida em que aquelas que estão à margem do modelo hegemônico são interpeladas por mais de uma fonte de opressão.


Como ressalta Lugones (2005), o deslocamento epistêmico da opressão patriarcal universal para a relação entre a formação de gênero 107 das mulheres brancas burguesas e a formação de gênero das mulheres não brancas permite ver que as particularidades da opressão das primeiras têm sido inscritas no próprio significado da categoria mulher. O deslocamento pede uma epistemologia descolonizada que refute o universal, pois a universalização reduz as diferenças a um equivalente geral de mesmo valor. (SODRÉ, 2005).


A caminho da autodefinição


Imagens estereotipadas das mulheres negras, decorrentes de representações racializadas de gênero, marcam suas trajetórias em diferentes países da diáspora negra. A socióloga estadunidense Collins (2000), referindo-se aos estereótipos como imagens de controle (controlling images) – uma vez que procuram fomentar uma definição das mulheres negras como “outro” objetificado e desumanizado –, diz que a função da desumanização serve para justificar o controle dos grupos. Assim, as imagens de controle são designadas para mascarar o racismo, o sexismo, a pobreza e outras injustiças sociais, fazendo-os parecer natural, normal e parte inevitável do cotidiano, sendo, desse modo, fundamentais para a manutenção das desigualdades sociais.


As mulheres, em sua totalidade, são representadas por imagens estereotipadas, porém de formas diferentes. Nesse sentido, as imagens de controle, sublinha Collins (2000), funcionam para mascarar relações sociais que afetam todas as mulheres. Por um lado, justificam a exploração econômica e garantem a subordinação das mulheres negras. Por outro, asseguram a manutenção das opressões de gênero e regulam a sexualidade das mulheres, sejam negras ou brancas.


Carneiro (2003), na mesma linha, discorre acerca das marcas produzidas pela violência física, emocional e mental em nossos corpos, resultados reais das representações negativas das mulheres negras. Segundo ela, a objetificação da mulher negra tem provocado graves sequelas em sua autoestima, de duas ordens diferentes de violência:


[...] uma oriunda da ideologia machista patriarcal, que concebe as mulheres em geral como objetos de propriedade masculina; a outra, de natureza racial, que institui a desvalorização das negras em relação às brancas, disponíveis e acessíveis a ‘precinhos módicos’. (CARNEIRO, 2003, p. 14). 108


O racismo constrói diferentes trajetórias e relações de gênero para mulheres e homens de grupos étnico-raciais distintos, mas faz também com que mulheres e homens pertencentes ao mesmo grupo racialmente subordinado vivenciem o racismo de lugares de gênero diferentes. Assim, as experiências específicas das mulheres negras com o racismo, como destaca Carneiro (2003), podem ser definidas pela expressão “racismo de gênero” ou “racismo gendrado” .


A ideia de racismo de gênero foi amplamente desenvolvida pela autora Loomba (1998). Segundo disserta, os corpos femininos, desde o período colonial até o presente, sempre simbolizaram a terra conquistada. O uso metafórico dessa perspectiva do corpo feminino varia de acordo com as exigências e as histórias de situações coloniais particulares.


Recorrendo ao pensamento de Frantz Fanon, Loomba (1998) explora como o racismo assume uma forma particular quando localizado no corpo “feminizado” e produz, ao mesmo tempo, repulsa e desejo de possuir o outro feminino racializado. A autora, refletindo a partir da interseção dos marcadores de opressão, gênero e raça, aborda as teorias cientificistas fundadoras de um corpus mitológico acerca do corpo feminino racializado e afirma que o resultado real dessas construções e dinâmicas de poder será a produção da sexualização racializada do outro feminino.


Defendo, porém, a expressão “racismo gendrado” por acreditar que tal perspectiva passa a ideia de movimento promovido pela interseção de gênero e raça, produzindo experiências particulares às mulheres dos grupos racialmente submetidos. A opressão, o processo de exclusão e a violência impostos pelo racismo, como dito anteriormente, são distintos para homens e mulheres, pois, citando a socióloga indiana Brah (2011, p. 188), o “racismo codifica distinções de gênero embora pareça subsumi-las. O processo de subsunção é importante para impor uma unidade ‘imaginada’ e ‘imaginária’ ao grupo racializado”.


Os estereótipos referentes às mulheres negras representam as distinções de gênero codificadas pelo racismo através de diferentes discursos, e a sua historicidade é passível de ser apreendida pela investigação. Os estereótipos, portanto, têm cumprido historicamente a função de rebaixar uma parcela da humanidade, transformando particularidades em marcas naturalizadas, essencializadas, em justificativas para as diferenciações sociais, para o controle e a dominação das(os) que foram assinaladas(os) pelas representações negativas.


Uma forma de enfrentar a objetificação e as imagens de controle, sublinha Collins (2000), ocorre através da contestação dessas imagens negativas, bem como da substituição por outras positivadas, ou seja, quando as mulheres negras definem a si próprias. Quando desafiamos e rejeitamos definições daquelas(es) que desfrutam de autoridade e legitimidade, adquirida em função de privilégios históricos garantidos pela branquitude , como se direitos fossem, empreendemos a autodefinição.


A autodefinição contribui para o fortalecimento individual e coletivo, na medida em que o grupo fala para si; elabora a sua própria agenda a partir de suas necessidades – a fim de enfrentar os estereótipos e as imagens de controle; e permite tanto o questionamento do que é dito acerca do grupo quanto da credibilidade de quem fala.


Historicamente, as mulheres negras vêm desafiando e rejeitando definições negativas, como as da ciência moderna do século XIX, que nos negou humanidade. E, por que não dizer, continua tentando negar, pois quando temos nossos corpos violados, arrastados pelo asfalto e jogados como coisa descartável, é nossa humanidade que continua a ser questionada com base em representações simbólicas construídas no passado. Ação reveladora da impiedosa permanência de ações colonialistas, estruturando, ainda, práticas atuais de rebaixamento da humanidade de negras e negros, que são denunciadas e combatidas diariamente.


Empoderamento coletivo com o feminismo negro


O debate atual sobre os diferentes sujeitos dos feminismos, promovido por feministas negras, lésbicas, transexuais, indígenas e latino-americanas, remete à autodefinição coletiva levada a termo por mulheres desses segmentos sociais, com vistas ao empoderamento. Empoderamento compreendido com base na conceituação de Collins (2000), como processo individual e coletivo, no caso das mulheres, de construção de autonomia, de tomada de decisões, de capacidade de agir e alterar as condições de suas vidas.


Nesse movimento, o feminismo negro se configura como proposta teórica e política de sujeitos não hegemônicos, que avançam na construção da sua própria definição, recorrendo a outras biografias pessoais e culturais como importantes fontes de conhecimento.


Para as feministas negras, a incorporação da perspectiva racial é fundamental, na medida em que raça reconfigura a forma como as mulheres negras experienciam gênero em muitas sociedades.


Segundo a feminista dominicana Curiel (2007), o feminismo negro oferece um corpo teórico independente e particular, a partir de experiências concretas de opressão e de uma consciência particular sobre essa opressão. O feminismo negro não tem sua fundação na ilustração da modernidade, pois reivindica epistemologicamente a experiência sobre corpos particularmente oprimidos. Pode ser definido como aliança entre reflexão teórica e experiências práticas individuais e coletivas.


Para as feministas negras, apoiadas na concepção da pesquisadora estadunidense bell hooks (1984), feminismo é movimento que tem por objetivo acabar com o sexismo, a exploração e a opressão sexista redefinidas por raça. Feminismo é um compromisso ético, político, teórico e prático com a transformação da sociedade a partir de uma perspectiva antissexista, antirracista, anti-homofóbica, antilesbofóbica, anti-heterossexista, anticapitalista. Feminismo não é um estilo de vida, o qual se opta ou não por seguir.


Ativistas feministas negras brasileiras defendem um pensamento feminista próprio, elaborado à luz de saberes, práticas e experiências históricas de resistência aos processos de opressão que as submete em função de raça, gênero, classe e sexualidade. Esse pensamento feminista crítico, alimentado por valores, princípios e cosmovisão – organizados a partir de referenciais negro-africanos – defende a pluralidade epistemológica encontrada em diferentes experiências e realidades, visando à produção de novos conhecimentos e de novos projetos de sociedade.


Gonzalez (1988), pensadora negra brasileira, defendia um feminismo afro-latino-americano que incluísse as mulheres que atuam nas margens do sistema capitalista globalizado, com o intuito de construir modelos alternativos de sociedade, um feminismo comprometido com a recuperação dos processos de resistência e de insurgência aos poderes estabelecidos e as vivências de protagonismo levados a termo por mulheres negras e indígenas – processos estes que podem ensinar novas estratégias de luta.


Portanto, os feminismos adjetivados como negro, indígena, lésbico, trans, pós-colonial são expressões de experiências de resistências e de lutas e conquistas de espaços políticos desenvolvidas desde lugares de exclusão. Entretanto, tais lugares foram ressignificados e transformados em material propulsor para a mobilização política. Os adjetivos que flexionam “o feminismo”, pluralizando-o, indicam lugares de enunciação de identidades políticas opositoras às ideologias e às práticas racistas, patriarcais e heterossexistas.


São posições feministas que vêm, desde muito tempo, defendendo a construção de um projeto transformador de sociedade; que vêm enfrentando as relações sociais patriarcais. Os projetos dos feminismos adjetivados não podem ser confundidos ou esvaziados a ponto de serem pensados como expressões de uma única vertente ou matriz feminista hegemônica. E por que não?


Porque são feminismos que falam das diferenças entre as trajetórias das mulheres nas sociedades colonizadas, como nos mostrou Sueli Carneiro no início desse ensaio. Trajetórias matizadas por marcadores que produzem situações de opressão e de resistência distintas.


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