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A invenção do estigma travesti no Brasil

Texto que compõe o primeiro volume dos “Seminários Outros Olhares”, organizado pela Fábrica de Imagens. Por Elias Ferreira Veras e Oscar Guasch Andreu.



RESUMO

No presente artigo, analisa-se como o estigma se localizou como elemento constituidor da representação público-midiática no processo histórico de construção do sujeito travesti no Brasil. Para realizar a arqueologia dessa invenção histórica, escavamos os discursos da imprensa, entendendo esta como dispositivo de produção de subjetividades que constitui a matriz heteronormativa. Relacionamos as peculiaridades dos enunciados produzidos em Fortaleza (CE), na década de 1980, com a produção discursiva sobre o universo trans que circulava nacionalmente no mesmo período. Tal gesto teórico-metodológico nos aproxima do olhar genealógico foucaultiano, que persegue as normas discursivas escondidas sob a poeira do tempo-templo que sustentam as invenções históricas.


PALAVRAS-CHAVES: Travestis. Estigma. Contradiscursos.


INTRODUÇÃO

Propus-me a analisar um grupo de jovens e seus parceiros homossexuais adultos. A interação desse grupo de menores com determinada categoria de homossexuais masculinos é analisada procurando detectar o significado da mesma. Verifico também a natureza dessa relação e como os dois grupos a interpretam, como se apresentam e veem a situação. Especialmente em relação às categorias de homossexuais, procuro detectar como convivem com seu estigma e se veem a si mesmos. (ERDMANN, 1981, p. 1).


O trecho anterior encontra-se nas primeiras páginas da dissertação “Reis e rainhas no desterro: um estudo de caso”, da pesquisadora Regina Maria Erdmann, produzida na década de 1980, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nessa etnografia pioneira sobre o sujeito travesti, a autora estudou a interação entre um grupo de jovens e seus “parceiros homossexuais adultos”. Entre esses últimos, estavam aqueles que se definiam como travestis. Etnografia que se converteu em história.


O trabalho de Erdmann (1981) é um registro histórico da representação hegemônica acerca do sujeito travesti no início dos anos de 1980 no Brasil: “o” travesti, tratado à época no masculino, pertencia a uma determinada categoria de homossexuais que conviviam com um estigma. (GOFFMAN, 2012). Contudo, ainda que a pesquisa da referida autora continue considerando as experiências homossexuais (e travestis) como estigmatizadas, é inegável que os enunciados produzidos pelo seu trabalho inauguraram novos lugares de enunciação e de denúncia, ao possibilitar, por exemplo, que seus(uas) interlocutores(as) protagonizassem o verbo, elaborando discursos sobre si, marcados pela pluralidade dos modos de experimentar a travestilidade.


Enquanto Erdmann (1981) empregou a categoria estigma para explicar as interações entre jovens e homossexuais, inserindo seu estudo na área do “comportamento desviante”, o que revela os ecos do pensamento de Goffman e Becker (apud VELHO, 2002) nas ciências sociais no Brasil, também nos apropriaremos desse conceito. Todavia, se para a autora parecia não restar dúvidas de que travesti integrava uma categoria de homossexuais estigmatizados, neste artigo, estamos interessados em analisar a forma em que o estigma se localizou como elemento constituidor na construção histórica do sujeito travesti no Brasil, e ainda, quais contradiscursos foram elaborados na denúncia desse estigma. Tal gesto teórico-metodológico nos aproxima do olhar genealógico, conforme pensado por Foucault (2005), que persegue as normas discursivas escondidas sob a poeira do tempo-templo que sustentam as invenções históricas.


Para realizar a arqueologia dessa invenção histórica, ou seja, da emergência do sujeito travesti como sujeito estigmatizado, escavamos os discursos da imprensa, entendendo esta como sendo parte constituinte dos dispositivos heteronormativos. Relacionamos as peculiaridades dos enunciados produzidos nos dois maiores jornais em formato impresso de Fortaleza – O Povo (OP) e Diário do Nordeste (DN) –, na década de 1980, com a produção discursiva sobre o universo trans (BENEDETTI, 2005), que circulava nacionalmente.


Quais representações sobre o universo trans foram produzidas por esses discursos? Como os sujeitos que reivindicavam uma identidade travesti se apropriaram dessas representações? À primeira questão, apontamos que a grande imprensa de Fortaleza, mas também de outras cidades do Brasil, lançaram seu olhar, sobretudo, para a prática da prostituição travesti, produzindo um sujeito “travesti marginal” que assume visibilidade através de notícias relacionadas à “desordem” da cidade: brigas, assassinatos, roubos etc. À segunda, afirmamos que as roupas do estigma não foram vestidas de modo passivo pelos sujeitos.


As travestis costuraram e bordaram com novas linhas de fuga, antigos modelos de masculinidade e de feminilidade, ofuscando as verdades estabelecidas do sistema sexo/gênero, moldado pela ideia de que existe um homem e uma mulher de “verdade”. Elas também redesenharam os espaços da cidade através de outras ocupações dos lugares públicos, reorganizando antigas noções do público e do privado. Nesse sentido, a produção da travesti como sujeito estigmatizado, buscou ocultar o caráter de resistência das experiências trans aos processos normatizadores do gênero e da cidade.


TRAVESTI: ESTIGMA E ABJEÇÃO

De acordo com o sociólogo Goffman (2012) os sujeitos estigmatizados são aqueles(as) inabilitados(as) para uma plena aceitação social. Para ele, os estigmatizados não são completamente humanos, por isso “construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando, algumas vezes, uma animosidade baseada em outras diferenças, tais como as de classe social”. (GOFFMAN, 2012, p. 8).


A epistemehistórica (FOUCAULT, 2000) que conforma os discursos de emergência acerca do sujeito travesti foi marcada pela produção discursiva heteronormativa de um sujeito “travesti marginal”. O corpo ambíguo e indeterminado – nas entrelinhas desses enunciados, esconde-se a ideia de que as travestis apresentam um excesso do gênero – e a prostituição, prática social travesti que assumirá maior visibilidade na sociedade – no não revelado dessa visibilidade, vê-se a ideia de que os corpos das travestis são lugares de excessos de vícios – serão interpretados por essa produção discursiva heteronormativa como marcas do estigma.


O estigma travesti estaria encarnado no corpo – tanto nos hormônios quanto no silicone. Seriam, portanto, marcas corporais que se mostram e se escondem através da ambiguidade e da indeterminação. Homem? Mulher? Homossexual? Transexual? Travesti? Surgem como ameaça à pretensa coerência do sistema sexo/gênero, à suposta inteligibilidade dos gêneros e à fictícia verdade das categorias homem/mulher.


Tais enunciados (re)atualizaram velhas associações, como aquela entre homossexualidade, patologia e criminalidade, que encontraram novas formas de divulgação e de repercussão nos meios de comunicação. Se a ambiguidade aparece oferecendo riscos à pureza da ordem sexo/gênero, uma vez que ameaça polui-la, a prostituição representaria perigo ao ordenamento da cidade, que surge nos discursos da grande imprensa como lugar que necessita de policiamento e de limpeza.


Ambiguidade e indeterminação

O aparecimento de Roberta Close na revista Playboy, em 1984, e a sua repercussão nos meios de comunicação, nos ajudam a pensar de que forma a ambiguidade e a indeterminação foram produzidas pelo discurso midiático como marcas constitutivas do estigma travesti, ao mesmo tempo em que foram tomadas como elementos de fascínio.


O texto que acompanhava o ensaio sensual de Roberta Close na revista reservava à modelo um discurso elogioso, o qual revela o quanto a ideia de fascínio estava atravessada pelo discurso estigmatizante, presente, por exemplo, na acusação de que a modelo teria roubado o lugar das mulheres mais bonitas.


Raras pessoas provocam curiosidade tão intensa como Roberta Close, que, sendo como é, roubou o lugar das mulheres mais bonitas no último carnaval e anda atrapalhando completamente a cabeça de muitos homens deste país. Como é ela – que se define como uma pessoa transexual? ‘Uma moça fina e bem-educada, que eu teria o maior prazer em convidar para casa, certa de que encantaria todos os meus amigos’ é a opinião do colunável carioca Noelza Guimarães. ‘Roberta é uma pessoa extremamente gentil e uma profissional de rara competência’, acrescenta o produtor Guilherme Araújo. E Suzana de Moraes, filha do poeta e diplomata Vinicius de Moraes, […] não deixa por menos: ‘Roberta é delicada e doce, uma grande artista, uma gracinha’. O mais entusiasmado, no entanto, parece ser o analista Eduardo Mascarenhas, embora só a tenha encontrado uma vez, rapidamente, numa festa. Ele é definitivo: ‘Roberta é simplesmente um marco na história social do país. É a primeira pessoa assim que transmite um sentimento de sensualidade e ternura, e não o clima habitual de agressividade e ódio pelo que é diferente’. (CARDOZO; CAVALCANTE, 1984, p. 88).

Um “pequeno detalhe” era lembrado pela publicação como explicação para que La Close tivesse chegado ao “ponto onde chegou”: na sua carteira de identidade, seu nome era de homem. O nome masculino da modelo, que mantinha seu parentesco com as travestis que ocupavam outro tipo de publicação no Brasil daquele período – a seção policial da grande imprensa impressa –, não foi esquecido pela revista Playboy, mesmo diante dos elogios à sua feminilidade.


A lembrança da ambiguidade de Roberta estava presente em praticamente todas as reportagens dos jornais O Povo e Diário do Nordeste sobre o “fenômeno” Roberta Close, como ficou conhecida a repercussão em torno da modelo. Essa produção discursiva acompanhou o desnudamento do seu corpo e as tentativas de desnudamento de sua “alma” na mídia.


“Pequeno detalhe” que lembrava que o discurso de fascínio em torno de La Close, alicerçado sobre determinado ideal de beleza feminina e construído em oposição ao estereótipo da “travesti marginal”, estava acompanhado por discursos estigmatizantes. Nesse sentido, seria um engano acreditar que as travestis e transexuais que se aproximavam de uma representação da “mulher de verdade”, e mesmo aquelas que conquistavam reconhecimento social através da mídia, estivessem plenamente aceitas na heteronormatividade.


Em 1985, por exemplo, a jornalista Regina Marshall, à época jornalista do jornal O Povo, recorria a La Close para escrever mais uma de suas colunas, hoje facilmente considerada transfóbica:


Faz muito bem o Sindicato dos Jornalistas do Rio reclamar uma providência enérgica quanto à presença de Roberta Close no ‘Jornal de Domingo’, da TV Manchete, dando uma de entrevistadora. Que me desculpem a expressão, mas diante da contratação ridícula de tal figura que, além de se passar por mulher, ainda quer dar uma de jornalista, a ‘press’ verde-amarela está descambando para a avacalhação total. De algum tempo para cá, esse pessoal (Roberta Close, Clodovil e similares), antes confinados a salões de cabelereiros, bailes ‘gays’, ou costurando para fora, deu para dar uma de ‘estrela’, transformando-se em cartazes, com espaço livre para deitar e rolar, promovendo e exteriorizando seus problemas. (MARSHALL, 1985, p. 8).

Marshall (1985) acionava a representação da travesti como sujeito que roubava da “mulher de verdade” a feminilidade. Essa mesma ideia de usurpação está presente no elogio dos jornalistas da Playboy a Roberta, o que demonstra que fascínio e estigma constituem a mesma matriz de produção de sentidos acerca das travestilidades no Brasil. No texto da jornalista, aparece também a ideia do disfarce atrelada às experiências transque ameaçaria não apenas a “press” verde-amarela, ou seja, a imprensa, mas de modo geral a sociedade.


Os enunciados em torno do “fenômeno” Roberta Close ensinam que quando não há excesso, parece não existir sujeito travesti. Assim, a ideia de excesso de gênero associada à ambiguidade e à indeterminação revelam que os discursos estigmatizantes são constituídos pela matriz heterossexual que produz um domínio de seres abjetos. Aqueles que, ao transbordarem as categorias binárias de gênero, escapam do discurso inteligível, sendo considerados não sujeitos. Esses discursos também interpretaram o corpo e a vivência dos sujeitos travestis no universo da prostituição como lugar do estigma e da abjeção. Esse excesso de gênero parece ter sido atrelado à ideia de um excesso de sexualidade.


Interpretadas pelo discurso heteronormativo como experiências que extrapolam o binarismo masculino/feminino, levando alguns(mas) a falarem em “terceiro sexo”, as travestilidades transbordaram ainda o modelo “bicha/bofe”, que definiam as relações homoeróticas no Brasil até a década de 1970.


Nessa lógica discursiva, que não apenas descrevia a “realidade”, mas a produzia, as experiências dos sujeitos travestis foram consideradas excessivas, inclusive, pelo discurso de construção da igualdade levado a cabo pelo nascente movimento homossexual brasileiro, tão próximo do modelo de “homossexual assumido” norte-americano, tão distante da “bicha”, do “afeminado”, da “travesti extravagante” brasileira.


Prostituição e criminalidade

O historiador Green (2000, p. 404) lembra que, até a década de 1960,a palavra travesti significava um homem “vestido com roupa de mulher”, sem a conotação de uma pessoa que trabalhava como profissional do sexo. A partir do final dos anos de 1970, o termo se transformou em sinônimo de homossexual que se prostitui.


De acordo com o historiador, a visibilidade crescente de travestis e de michês pelas calçadas das grandes cidades acarretou uma mudança significativa na paisagem urbana do país, estando relacionada à flexibilidade dos códigos de vestuários, ao crescente número de shows de travestis nos clubes e à democratização do fenômeno do estrelato, que possibilitou que algumas travestis obtivessem retorno financeiro.


Já em Fortaleza, a associação entre travesti e prostituição se tornou mais evidente a partir da década de 1980. Nesse período, a cartografia erótico-sexual da cidade assumiu novos contornos devido à proliferação de motéis, ao aumento das publicações pornográficas, à exibição de filmes pornográficos e ao surgimento dos primeiros anúncios sexuais disfarçados de “massagistas” ou “acompanhantes” nos classificados dos jornais. Tal associação está relacionada à formação de um comércio do sexo que se intensifica com o turismo, mas, sobretudo, à emergência de um discurso disciplinador que defendia a necessidade de policiamento e de limpeza, especialmente das praças localizadas no Centro da cidade.


A carta de um leitor enviada à seção de Opinião do jornal O Povo, publicada em 16 de janeiro de 1990, oferece indícios da trama jornalística que produz um sujeito travesti marginal e perigoso que ameaça o ordenamento da cidade.


Sr. editor: depois que a Polícia Militar do Ceará colocou nas ruas centrais de Fortaleza, no horário noturno, a partir das 22 horas, a cavalaria e os cães amestrados, diminuiu bastante o número de roubos, assaltos a mão armada, saques e incêndios nas lojas, praticados pelos mirins e travestis, não somente portadores do defeito moral da pederastia, mas finíssimos ladrões. E a prova de que os travestis são periculosos à sociedade é que os mesmos ficam diariamente na rua Duque de Caxias com Senador Pompeu e também na Praça do Ferreira, em grande grupo, assaltando pessoas indefesas. A PMC deve fazer busca de arma nos travestis que andam armados com giletes, navalhas etc. e são um perigo, sobretudo para os turistas desprevenidos. (COSTA, 1990, p. 6A).

Não sabemos se Costa (1990), que teve sua carta publicada na mesma página das “opiniões especializadas”, era um leitor “real” ou “ficcional”. O fato é que seu discurso parecia não deixar dúvidas: “os” travestis eram “periculosos à sociedade”. Quantos(as) leitores(as) devem ter compartilhado da mesma sensação pela “proteção” policial contra aqueles sujeitos “portadores do defeito moral da pederastia” e “finíssimos ladrões”?


Dois dias antes de publicar a carta de Eduardo Carlos, o mesmo jornal trazia a reportagem “Travestis: nem Aids preocupa os que fazem ponto em Fortaleza”, na qual ficava explícita a associação entre travestis, prostituição e Aids:


O centro de Fortaleza é palco de inúmeras transas no período da noite. […] Em busca de clientes, mulheres e travestis lutam pela madrugada na tentativa de adquirir o pão de cada dia em troca de prazer. […] Cruzamentos de ruas como a São Paulo com Floriano Peixoto, transformam-se em verdadeiras passarelas. Após as 21 horas, começa o jogo da sedução. […] O difícil é distinguir quem realmente é homem ou mulher. (QUEZADO, 1990, p. 16A).

A reportagem trazia o depoimento de Alcione, de 26 anos, que dizia estar “bom” o mercado para travestis em Fortaleza, embora “ainda fosse fraco”, se comparado com o Sul e o Sudeste. O termo “garota”, assim como o pronome “ela”, foi empregado no texto jornalístico entre aspas. Afinal, para o discurso jornalístico, pessoas como Alcione não passavam de homens “vestidos de mulher” que integravam uma “legião de travestis”. Alcione era representada como uma falsa-mulher. Seu nome feminino, que para ela constituía parte do seu processo de travestilidade e de autoafirmação, aparecia na matéria como prova de seu embuste e disfarce.


Os trechos anteriores revelam que o discurso da imprensa associou as experiências dos sujeitos travestis à prática da prostituição, relacionando-as a toda sorte de perigos: assassinatos, roubos e Aids. Nessa trama jornalística, se entrelaçam ambiguidade/indeterminação, prática da prostituição, denúncia de ocupação dos espaços públicos e demandas por policiamento e por limpeza. Enquanto as travestis surgiam como sinônimo de perigo, a cidade aparecia como lugar de proteção.


Apesar da simpática repercussão do “fenômeno” La Close na imprensa, que em Fortaleza coincidiu com a expansão de uma cartografia transhomoerótica – como o tradicional Baile de Carnaval do Ginásio Paulo Sarasate, os concursos Miss Gay e os espetáculos protagonizados por travestis e transformistas em boates e teatros –, a visibilidade pública mais frequente acerca desses sujeitos era aquela que os associava à prostituição e aos diversos crimes cometidos na cidade.


Assim, ao compararmos o lugar reservado a Roberta Close na imprensa com aquele reservado à Alcione, percebemos que esta última tem sua história resumida à prática da prostituição, inscrita através de breves linhas, quase sempre acompanhadas por uma fotografia em preto e branco, tão contrastante com as coloridas imagens da revista Playboy.


A ausência de biografia trans no discurso da grande imprensa é um dos elementos que constitui o dispositivo heteronormativo que produz o sujeito travesti como estigmatizado. Nessa invisibilidade, esconde-se a ideia de que, ao não serem reconhecidas como humanas, as travestis, principalmente aquelas pertencentes às camadas populares, não teriam direito a uma biografia, ao final, a uma vida. Somente as que possuíam uma ambiguidade perfeita ou que buscavam se afastar do universo da prostituição, como fez La Close, tinham direito a uma história de vida. Contudo, os sujeitos não reduziram sua dizibilidade à visibilidade/invisibilidade produzida pelos meios de comunicação. A produção discursiva jornalística está atravessada por contradiscursos – uns mais explícitos, outros menos explícitos, nos quais se lê a denúncia do estigma por parte das travestis.


Contradiscursos: a denúncia do estigma

A partir da intensificação da associação entre travesti e prostituição, algumas delas se apropriaram e produziram contradiscursos. Travestis como Tina Rodrigues, ativista de Fortaleza, assumiam não apenas uma nova identidade sexual, mas também uma visibilidade através do protagonismo do verbo. Esse protagonismo discursivo transformou a mídia em arena de denúncia da sociedade heteronormativa, principalmente, da violência policial. Se através desses novos discursos as travestis ainda não faziam o “luto do estigma”, estratégia político-discursiva surgida nos anos de 1990, a partir da organização da “militância de grupo”, elas iniciavam o processo de luta que tornavam visíveis os preconceitos e as violências sofridas cotidianamente.


Em 23 de setembro de 1988, o jornal Diário do Nordeste publicou uma reportagem, com chamada de capa, denunciando a repressão policial às travestis e aos homossexuais que frequentavam os bares e boates localizados na “Passarela”, na avenida Duque de Caxias, importante espaço ocupado pelas travestis em Fortaleza.


Os gays e travestis denunciam que estão sofrendo cerrada perseguição da Polícia Militar, numa briga onde vale tudo, desde as humilhações às agressões físicas, passando naturalmente pela extorsão. No maior reduto homossexual da cidade, trecho da avenida Duque de Caxias, compreendido entre as ruas General Sampaio e Barão de Aratanha, o temor é generalizado. Ali a polícia está recolhendo, de forma indiscriminada, todos os travestis que são encontrados. Eles dizem que não se trata apenas de preconceito, mas de uma atitude policialesca exacerbada, com o cerceamento do direito que tem o cidadão de fazer a sua opção sexual. (GAYS…, 1988, p. 17).

A reportagem foi ilustrada por uma fotografia na qual aparecem duas travestis, tendo ao fundo um outdoor com a imagem de um policial e a seguinte frase: “Para você, este é um rosto amigo. Para os marginais, é a face da lei”. O outdoor fazia parte de uma campanha do Governo do Estado do Ceará para melhorar a imagem da polícia perante a opinião pública. Tina foi uma das travestis entrevistada e fotografada.


Enquanto na reportagem a maioria dos gays, travestis e transformistas – generalizados sob o termo homossexual – preferia manter o anonimato, Tina falou:

Durante o episódio do último dia 11, a ‘Miss Simpatia 88’, Tina Tunner, 25 anos, comerciário, nunca passou por uma situação tão vexatória – Ficamos expostos ao público como se fôssemos prisioneiros de guerra. Percorremos as ruas da cidade, até a Central de Polícia, e lá dentro, eles (os policiais) nos obrigaram a desfilar debaixo de porrada. (GAYS…, 1988, p. 17).

A denúncia do estigma aparece de modo explícito na fala de Tina, provando que o discurso da grande imprensa sobre o sujeito travesti não era monotemático. Contudo, na maioria das vezes, esses contradiscursos são percebidos somente através de uma análise a contrapelo. Eles estão presentes nas entrelinhas, quase como um sussurro inaudível.


Em 1985, o Diário do Nordeste trazia a seguinte matéria:

Os travestis ‘Jane’ e ‘Fafá’, respectivamente, Antônio Silva Bezerra e Aldenor Lúcio da Rocha, na madrugada de ontem foram presos no Centro de Fortaleza por estarem praticando desordens, enquanto ‘faziam ponto’. O Comando de Operações Militares (Copom) recebeu denúncia por parte de populares que ambos estavam fazendo ‘strip tease’ na via pública. Na prisão, um dos policiais empurrou um dos homossexuais, o que foi suficiente para criar uma imensa confusão na hora deles entrarem no ‘camburão’. Ao chegarem à Secretaria de Segurança Pública, onde funciona a delegacia de plantão permanente, o ‘espetáculo’ voltou a se repetir. Os travestis quebraram os telefones, vidraças das janelas, cadeiras, além de aplicar violentos tapas, arranhões e mordidas em vários policias que se esforçavam para aplacá-los […]. Após quebrar o vidro da janela do cartório, ‘Fafá’ ainda cortou os dois braços, tendo que receber atendimento médico. (TRAVESTIS…, 1985, p. 10).

Percebe-se no trecho anterior que o discurso da imprensa sobre as travestis acusadas de “desordem” em via pública se repetia: título sensacionalista; foto das travestis presas; nome feminino entre aspas seguido do nome masculino; associação com a prostituição; violência policial que culminava com as travestis no “camburão” e na prisão; a tática de cortar-se, como estratégia de sobrevivência à violência da prisão; e ausência de falas das próprias travestis.


“Jane” e “Fafá” deram um “espetáculo” na delegacia. Fizeram um escândalo, algumas diriam. Ora, o escândalo travesti talvez seja a metáfora mais explícita de sua transgressão às marcas do estigma e da abjeção, pois ao mesmo tempo em que era interpretado pelo dispositivo da imprensa como ato irracional – na fotografia que acompanha a reportagem, as travestis aparecem enjauladas como animais –, ele é, sobretudo, ato político de denúncia.


Considerações finais

O sujeito travesti que emerge de modo colorido dos bailes de Carnaval, dos palcos das boates e dos teatros como sinônimo de fascínio e de curiosidade, na medida em que vai deixando de ser personagem e vai assumindo uma identidade marcada por transformações corporais, passa a ser considerado transgressor ao ordenamento do sistema sexo/gênero.

Ao risco ao ordenamento do gênero (binário), soma-se a ameaça ao ordenamento da cidade. Ao excesso de gênero, mistura-se o excesso de sexualidade. Ao estigma por não habitar a inteligibilidade dos gêneros, acrescenta-se a abjeção por habitar e partilhar com outros não sujeitos as “zonas inóspitas” da cidade, cuja metáfora da noite, como lugar de vivência travesti, mas também do desconhecido e do perigo, parece revelar.


O “fenômeno” Roberta Close aparece como ponto de inflexão nessa representação público-midiática hegemônica. Mesmo que La Close tenha buscado se afastar do termo travesti, é inegável que a repercussão da sua história contribuiu para que o universo trans e as discussões em torno da sexualidade/homossexualidade assumissem um debate mais amplo e diversificado no Brasil.


Essas disputas marcam a história recente das travestilidades no Brasil, o seu capítulo sobre a emergência do movimento político e, sobretudo, a trajetória dos sujeitos. Ainda hoje, apesar de toda a luta e da resistência trans, a multiplicidade das experiências dos sujeitos travestis e transexuais continua sendo interpretada – pelos dispositivos que constituem a matriz heterossexual – como lugar de estigma.


Certamente, caberiam aqui algumas reflexões sobre como as experiências travestis, no mesmo momento que emergem como novo sujeito público, elaboraram não somente resistências, mas novas subjetividades. De como esses sujeitos considerados estigmatizados elaboraram estéticas da existência, trabalho de si sobre si, cuja transformação corporal, a reinvenção dos gêneros, a reocupação dos espaços públicos e a construção de novas formas de família e amizade são exemplos.


Ressaltamos em nível de considerações (temporárias) finais que as roupas do estigma e da abjeção não foram vestidas de modo passivo pelos sujeitos. As travestis redesenharam, costuraram e bordaram, com novas linhas de fuga, antigos modelos de masculinidade e de feminilidade, reorganizando antigas noções de público e de privado.

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