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O que a pobreza menstrual revela


Por Anna Karina Cavalcante, feminista, professora, militante do PSOL e da Resistência Feminista.



Ao vetar a distribuição gratuita de absorventes para pessoas que menstruam, sejam jovens estudantes ou pessoas no sistema carcerário e em situação de rua, Bolsonaro só reforça o que já afirmamos há muito tempo: ele odeia mulheres. Através desse ódio, o misógino que está na presidência dialoga com um setor da sociedade que nos olha e nos trata como sujeitos de segunda classe e indignas de direitos. No fim, nos revela que quem é contra o combate à pobreza menstrual não pode ser nada mais do que nosso inimigo.


Desde 2014 a ONU reconhece a pauta como questão de saúde pública e de direitos humanos. Não há como garantir dignidade humana sem considerar aquelas que estão na maioria do planeta e que vivem em grande situação de vulnerabilidade: mulheres pobres e negras. Exatamente por essas condições que, ao fazermos campanhas de solidariedade, como a SOS Mães Solo que resiste desde março de 2020 em Fortaleza, inicialmente com cestas básicas, priorizando mulheres da periferia e dentre essas, as mães solo, temos priorizado a distribuição de absorventes como sendo tão fundamentais como são o arroz e o feijão.


A pobreza menstrual revela uma serie de fatores alarmantes estruturais na vidas de todas aqueles e aquelas que menstruam. E não apenas pela falta de dinheiro para a compra de absorventes. Revela-se um debate importante de acesso a direitos básicos, como água potável, saneamento, esgoto, banheiro, saúde e cuidados com nosso corpo, etc. A pobreza menstrual prejudica meninas jovens que deixam de ir à escola se ausentando do direito à educação e alimentam a evasão escolar.


Além das jovens, a maioria de pessoas com útero que não conseguem comprar absorventes, não tem emprego e muito menos vão a um profissional da saúde ginecológica que possa lhes dizer que materiais que são utilizados para aparar o sangue menstrual são materiais que as colocam em risco devido à falta de higiene (papel higiênico, jornal, um pano qualquer, sacos plásticos, etc). As consequências podem ser infecção urinária ou cistite, candidíase, infecção vaginal por fungo ou por bactéria. Então, a pobreza menstrual revela uma imensa falta de acesso à educação, moradia digna e saúde pública.


Muitas meninas passam por esse problema de forma solitária. Sem um diálogo em casa e sem educação sexual nas escolas, falar sobre menstruação parece algo irreal ou sujo. Prevalece a ignorância do preconceito à pautas que não são só de pessoas que menstruam. São pautas sociais e que precisam ganhar o espaço da política, não negando-as como fez Bolsonaro, nem negligenciando-as ou as deixando como responsabilidade individual dessas mesmas mulheres que são impedidas de estar em espaços políticos e de decisão.


A pobreza menstrual revela que é preciso educação sexual nas escolas e que essa é uma pauta de interesse público. São 11 milhões de pessoas com útero que passam pelo problema da pobreza menstrual todos os meses segundo relatório da UNICEF. A pobreza menstrual revela que para o poder político pense sobre a maioria da sociedade é preciso que as mulheres ocupem a política.

Os movimentos feministas na Europa usam absorventes como símbolo para alertar nossas pautas desde 2015. Já em países no continente africano, na América Latina e na China, a dificuldade de acesso a absorventes revela-se como um alerta social de pobreza que precisa ser combatida com políticas públicas.


É importante reforçar que o movimento de mulheres vem lutando por direitos a diversas pautas, porém nossa prioridade em países em que a pobreza só cresce, deve ser chegar nas mulheres com maior vulnerabilidade. No Brasil nosso feminismo deve ser voltado prioritariamente para as mulheres pobres e negras, portanto, precisa ser antirracista, ecofeminista, antilgbtfobico e socialista.

Bolsonaro usou argumento de falta de custeio para vetar a distribuição de absorventes mas esconde que seu governo não usou 1/3 dos recursos para políticas para mulheres desde 2019, ou seja, não aplicou R$ 400 milhões no combate à violência, incentivo a autonomia e saúde feminina, segundo a instituição AzMina. A fala do presidente ao vetar a distribuição de absorventes revela que o desprezo pelas mulheres é uma política adotada de forma consciente, revelando o quão perverso é e o queão necessário é derrotá-lo. Cada dia com Bolsonaro na presidência é um risco de vida a todes nós, em especial as mulheres. E até por isso a luta pela dignidadade menstrual também passa pelo FORA BOLSONARO.

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