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Maternidades para além do mito do amor materno

Por Raquel Vieira, Feminista, mãe do Raul, Professora de Serviço Social, Assistente Social, Estudante de Pedagogia, Mestre em Serviço Social, Especialista em Políticas Públicas, Especialista em Direitos Humanos, Gênero e Diversidade.





“Uma data de apelo ao consumo”, alguns podem definir o dia das mães dessa forma, daí surge a expressão “o dia das mães são todos os dias” e por aí vai. É óbvio que essas afirmações são verdadeiras, mas convido os/as leitores/as a ressignificar essa data como um momento simbólico e de luta necessário para refletirmos sobre maternidades, sim, com “s”, porque ser mãe é ser plural e cada experiência é única com seus desafios e possibilidades, inclusive destacando as nuances próprias da raça e da classe.


Dito isso, é preciso afirmar que ser mãe não é romântico, como bem explicou Bandinter (1985) em seu livro “O mito do amor materno”. Essa concepção de mãe submissa e única é uma concepção liberal tida como natural, que coloca a maternidade em um patamar de sacerdócio que, em verdade, não passa de um mito, ou seja, algo que não existe, que não é real.


A concepção do mito do amor materno aprisiona as mulheres em uma concepção de maternidade direcionada ao “instinto materno” ao “padecer no paraíso”, comportamentos que, na maioria das vezes, são inalcançáveis, gerando nessas mulheres mães uma frustação que em muitos casos tem impacto na saúde mental das mesmas, ocasionando transtornos como depressão, síndrome de burnout e baby blues.


Uma pesquisa apontada pela Fio Cruz ( 2016) indica que no Brasil, em cada quatro mulheres, mais de uma apresenta sintomas de depressão no período de 6 a 18 meses após o nascimento do bebê, esses números são mais expressivos entre as mulheres de baixa renda e pardas.

Vale destacar que esse cenário de sobrecarga materna se intensificou durante os dois últimos anos por conta da pandemia do Covid-19. Em estudo realizado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) com 822 mães de todas as regiões do país, concluiu que: 83% das entrevistadas sentiram uma sobrecarga em dividir as atenções do trabalho de casa com os cuidados com os filhos. Além disso, a pesquisa também revela que mais de 50% das mulheres apresentaram algum sintoma de ansiedade ou depressão durante a pandemia. (G1, 2021)


Tal cenário tem direta relação com a percepção de ser mãe nesta sociedade que, consecutivamente, gera uma sobrecarga desumana sobre essas mulheres.

Não podemos deixar de destacar que essa concepção do ser mãe é uma questão de gênero conectada diretamente sobre o ser mulher nessa sociedade que é diferente do ser homem, tendo inclusive, rebatimentos no modelo de paternidade hegemônico e privilegiado que quase nunca é questionado pela sociedade, ou seja, todos esses elementos partem de uma construção social.


Outro aspecto que perpassa o universo das maternidades que é necessário destacar diz respeito ao mercado de trabalho.

De acordo com pesquisa realizada: após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho, um padrão que se perpetua inclusive 47 meses após a licença. A maior parte das saídas do mercado de trabalho se dá sem justa causa e por iniciativa do empregador. (MACHADO, 2016, P.1)


Nesse cenário temos mulheres que perdem seus empregos pelo fato de serem mães.

No Brasil não existe uma política pública ou legislação que de fato proteja essas mulheres, embora tenhamos a garantia do trabalho dessas mães durante a gestação e período de licença maternidade de 120 dias, essas iniciativas se mostram insuficientes para garantia da permanência de mulheres mães em seus espaços de trabalho.


No que diz respeito a recolocação dessas mulheres, pesquisas apontam um cenário não animador e preconceituoso: Segundo o estudo Estatísticas de Gênero, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março deste ano, apenas 54,6% das mães de 25 a 49 anos que têm crianças de até três anos em casa estão empregadas. A maternidade negra, nesta mesma situação, representa uma taxa ainda menor: menos da metade está no mercado de trabalho (49,7%). (Souza, 2021)


O mercado de trabalho não considera as mulheres mães como trabalhadoras produtivas. Por uma questão cultural e social, essas mulheres são responsabilizadas exclusivamente pelos cuidados de seus filhos e podem se afastar do trabalho com frequência, o que não é vantajoso para seus empregadores. Esse cenário deixa essas mulheres à margem do mercado de trabalho, muitas vezes na informalidade e em empregos precarizados.


O que podemos refletir com o que foi apresentado? A sociedade dita um estereótipo único de maternidade, mas não se importa com os rebatimentos que isso causa nas mulheres mães. Isso inclui o adoecimento, a redução de renda e desemprego, dentre outras variantes que podemos estar explanando em outro momento.


Então que o dia das mães seja uma dia de reflexão sobre esse cenário não tão animador que essas mulheres enfrentam, que possamos cotidianamente incluir nas nossas discussões a questão das maternidades, que essas mulheres tenham visibilidade e que suas questões possam ser resolvidas no coletivo.


Ser mãe não é padecer no paraíso, mas é amar sem limites é resistir em um mundo que não nos dá fala, que nos silencia, mas somos nós as principais responsáveis pela produção e reprodução da vida. A revolução será feminista e materna.


Abraços da mãe do Raul.

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