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25 de Novembro - Dia do Enfrentamento da Violência contra a Mulher

Por Dhanny Marinho, Mulher Sarará, favelada, Lésbica, Educadora Social e Artista. Gestora sociocultural do Bando Somos Todas Marias – Licencianda em Teatro/IFCE, Pós Graduanda em Politicas Publicas e Sociais (FacPlus) e Pós-Graduanda em Arte Educação e Cultura Popular (FacPlus).



“Você precisa lutar por sua família, estamos aqui para lhe apoiar. Não permita que o 'diabo' destrua sua família”

“Você tem que agradecer por ter aparecido um homem que te aceitasse com seus dois filhos. Onde você vai encontrar outro que te aceite, principalmente agora com quatro filhos?”

“ Mulher divorciada não é respeitada, não queira isso pra sua vida. Tome o terço e reze com a gente. Essa fase vai passar.”

Essas e tantas outras, eram frases ditas para a minha mãe que vivia em uma situação de violência doméstica e familiar nos meados da década de 80.

A lei Maria da Penha só surgiria mais de vinte anos depois, desde quando minha mãe casou-se com meu ex-padrasto. As surras eram diárias e não importava as circunstancias e o local: Violências na frente dos filhos, dos meus avós, dos amigos, vizinhos, desconhecidos, em casa, na rua, durante a gravidez, no pós parto...

Foram anos que juntamente com outras mulheres, que desde a minha infância, me via rezando terços para que o “diabo” deixasse de operar em minha família.

Não demorou muito tempo para que eu percebesse que isso não fazia o menor sentido.

E não fazia.

Aos quatorze anos, decidi colocar meu ex-padrasto pra fora de casa e incentivar minha mãe a se divorciar.

De repente o “diabo” passou a ter cara e voz : O “diabo” passou a ser eu – Diziam.

“Você quer destruir o casamento da sua mãe?”

“Eu não quero ser uma mulher divorciada.”

“Se eu sair dessa casa, sua mãe virará uma mulher da vida”

Não existia nada próximo a mim que me dissesse que eu estava certa.

Na-da.

Mas dentro de mim, uma verdade era descortinada. Eu sentia o que devia fazer. E nada poderia me impedir.

Dessa forma, consegui expulsar o agressor de casa e conscientizar minha mãe sobre a separação.

Não de forma leve ou fácil. Me sentia sangrando cotidianamente enquanto era atacada por todos que não viam com bons olhos minhas atitudes.

Tempos difíceis.

Muito difíceis.

Até que, em um determinado momento, o movimento feminista chegou forte em minha vida e tempos depois, em 2006, a Lei Maria da Penha surgia como um atendimento a tantas preces.

Eu não estava errada.

Agora sabia.

Mas ainda havia muitas batalhas pela frente.

Em janeiro de 2018 foram assassinadas no Ceará 52 mulheres. O número chamou atenção do Fórum Cearense de Mulheres que iniciou o monitoramento mensal dos homicídios de mulheres no Estado e, a partir dele, uma série de manifestações pelo fim da violência de gênero. Do monitoramento resultou o dossiê "Feminicídio no Ceará: a dor de contar mortes evitáveis. O objetivo do documento é, mais uma vez, chamar a atenção das autoridades públicas para a subnotificação do feminicídio no Ceará e dar visibilidade ao problema.

O documento faz uma análise do histórico dos dados de violência contra as mulheres no Ceará, destacando que o estado, há mais de uma década, figura entre os três primeiros do país em casos de homicídios de mulheres e outras violências de gênero. O Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará monitora os dados referentes aos homicídios no Estado, e apresenta o acumulado de mortes no período de janeiro a julho de 2020.

De janeiro a julho de 2020, em média, uma mulher foi morta por dia no Ceará.

Os dados demonstram que até 31 de julho de 2020, foram contabilizadas 216 mulheres mortas violentamente, caracterizando, em média, 1 homicídio por dia. Houve um aumento de 66% em relação ao mesmo período de 2019, com 130 casos. Em relação a crianças e adolescentes do sexo feminino, de 0 a 18 anos, o crescimento foi de 124%, passando de 21 casos em 2019 para 47 em 2020.

As “mortes a esclarecer” de mulheres no Ceará cresceram 323% em 5 anos. Apenas entre os anos de 2014 a 2019, o número de casos alcançou a impressionante cifra de 4.526 mortes. O problema torna-se mais preocupante ao analisar o número de “mortes a esclarecer” do sexo feminino que, apenas em 2019, chegou a 558 casos, representando 81,5% do total de ocorrência no ano e um aumento de 323% se comparado com o número registrado em 2014.

Os registros até o final de julho de 2020 contabilizam 104 mortes, representando 76% do total registrado durante todo o ano de 2019.

Com o isolamento social o numero de casos de violência doméstica e familiar aumentaram, confirmando a pesquisa da ONU que indica que o lugar mais perigoso para uma mulher é a própria casa.

O sistema de justiça, todos os anos, arquiva por prescrição de prazo e sem ter concluído com as investigações, centenas de processos denunciados por mulheres que viveram ciclos de violência.

As que se veem adoecidas, não encontram atendimento gratuito prioritário.

Dessa forma, no dia 25 de Novembro, Dia do Enfrentamento da Violência contra a Mulher, o que queremos é que o Estado assuma o seu papel de forma eficiente na atuação das politicas publicas e que a sociedade entenda de uma vez por todas, que a aplicabilidade dos direitos das mulheres só acontecerá se estivermos comprometidos com essa causa.

Nenhuma mulher merece segurar um terço, por exemplo, para continuar inserida em uma situação de violência em nome de uma lógica que não prioriza a sua vida.

Muito menos seus filhos.

Das lembranças do passado, carrego a força de sentir o que precisa ser feito e a certeza que mesmo sabendo que não será fácil, mas que ao final valerá a pena.

Por uma vida sem violência contra a mulher, é o que queremos.

Que assim seja...Que assim seja!


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