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Deposição por justa causa

Por Marcos Rocha, Diretor da ONG Fábrica de Imagens




Imagine que você tem uma empresa e esta, como todas as demais do mercado, passam por uma crise. Todas as outras empresas do mundo avaliam a crise como grave, na verdade, gravíssima, mas você se aconselha com seu principal diretor sobre todo o cenário e o incube a tarefa de dar os devidos encaminhamentos para sanar ou pelo menos minorar os impactos dessa crise.


Para a sua tranquilidade, este diretor lhe diz que, segundo a avaliação dele, que se diga de passagem é o avesso da avaliação de seu principal subordinado, especialista na área, a referida crise não representa perigo algum. Sustenta que as perdas relatadas por outras empresas não são reais, são mitos e que as comunicadas por filiais, são mentirosas e que tem por função somente prejudicar sua direção. Assegura, ainda, que esta crise não passará de uma gripezinha, um resfriadinho e que as perdas dela oriundas não serão maiores que outras do passado, asseverando que estas atingirão no máximo um valor, que chamaremos aqui de “X”.


Seu diretor então começa a fazer comunicados, avaliações, receitar medidas que, segundo sua percepção, seriam as mais indicadas para resolver os problemas gerados pela crise. Todavia, tudo que enuncia, tudo que faz, é contrário ao que as outras empresas de todo mundo estão fazendo. É contrário ao que a “Organização Mundial dos Negócios” (OMN) sugere. É contrário ao que o seu principal subordinado, aquele que é efetivamente o especialista na área, indica como conjunto de medidas para enfrentar a crise. É contrário ao que todos e todas as gerentes das filiais da referida empresa avaliam, com seus corpos técnicos, que se deveria fazer. É contrário ao que os demais sócios da empresa e seu jurídico orientam.


A crise se agrava e seu diretor só tem vitalidade para rivalizar, para criar intrigas, para mentir, para identificar falsamente culpados, para tentar implementar medidas mundialmente identificadas como ineficazes ou mesmo agravadoras da crise e até para intimidar e ameaçar quem se opõe à sua perspectiva que, nesse momento, já é verdadeiramente desastrosa. Seu diretor, aliado a um punhado de lacaios, consegue criar problemas até com outras empresas parceiras que poderiam ajudar a sua, insultando-as, nesse momento de tanta dificuldade. Mas nada é tão desprezível quanto o seu deboche, ironia, sarcasmo e sua grosseria insensível, perversa ao se referir às perdas, às dores advindas dessa crise que atinge, de um modo ou outro, todas e todos.


A cada dia este diretor só piora a condução da crise em sua empresa. Já demitiu seu principal subordinado, o especialista e responsável direto pelo enfrentamento desse grave momento, por divergir de sua condução técnica. Contratou outro, que em um mês teve o mesmo destino, pois se negou a chancelar protocolos advindos da mente desequilibrada do diretor e de um grupo de pseudo especialistas que passaram a lhe assessorar. Por fim, ele coloca um dos seus lacaios como subordinado direto e responsável por debelar (ou agravar?) a crise, mas este não entende nada da área afetada da empresa e não passa de uma marionete, um pau mandado em suas mãos. Não se trata mais apenas de um desastre que com uma condução decente, sóbria e racional poderia ter sido contornado minimizando ao máximo as perdas, mas de uma calamidade, longa, profunda, intensa que afundou sua empresa em incertezas.


Neste momento o diretor só apresenta ter um objetivo. Dane-se a crise. Danem-se as perdas. Seu objetivo principal é se manter no poder como o principal diretor da empresa, ou melhor dizendo, único e com poderes ilimitados. Não pode voltar atrás para não perder o respeito e fidelidade pelo menos dos seus lacaios, então insiste e acirra seu comportamento debochado, insensível e de negação das medidas que poderiam efetivamente contribuir na superação da crise. Para se manterem no poder, ele e seus lacaios mentem, insultam, intimidam, subornam e usam de todas as estratégias possíveis, as mais vis, as mais subterrâneas, as mais desprezíveis, com uma criatividade inaudita para gerar desagregação e desesperança, pois é esta desagregação e esta desesperança que os sustentam.


Lembra que seu diretor afirmou que as perdas que sua empresa sofreria por conta da crise chegariam no máximo a “X”? Pois bem, passado pouco mais de um ano do início da crise, as perdas já chegaram a mais de “600X”. Isso mesmo, sua empresa já teve perdas superiores a 600 vezes a magnitude das perdas que seu diretor previu e permanece atacando gerentes de filiais, fazendo comunicados mentirosos, insultando parceiros, rivalizando e ameaçando seu jurídico e seus sócios. Nada mudou.


Agora vem a pergunta que não quer calar. É viável permanecer com esse diretor? Ele já não deixou evidente sua incompetência técnica, sua baixeza ética e a sua vileza política? Já não provou categoricamente sua desumanidade, sua perversidade crônica? Ele já não deveria ter sido demitido com justíssima causa por estar deixando sua empresa internamente em frangalhos, externamente ter enlameado sua imagem e por ter sido o motor de perdas duríssimas, especialmente se comparadas as das outras empresas que passaram e estão passando pela mesma crise, mas seguindo uma orientação técnica correta, administrativa e cientificamente de eficácia comprovada?


E se do que estamos falando não for uma empresa, mas uma nação? E se o dono dessa empresa não for você, mas o povo dessa nação? E se seu diretor for, na verdade, o presidente eleito por este povo e que deveria, acima de tudo, resguardar vidas? E se a crise for a pandemia por COVID 19? E se as perdas não forem somente monetárias, de reais ou dólares, mas de vidas humanas? E se o erro de cálculo do presidente sobre o número de vidas perdidas e todos os demais erros não tiverem sido propriamente erros, mas estratégias baseadas num cálculo utilitário e macabro que visa sua preservação de poder a revelia da defesa da vida dos e das suas concidadãs?


E se o “X” for 750, o máximo de mortes previstas pelo seu presidente decorrentes da pandemia, sendo que hoje contamos mais de “600X” de vidas perdidas, ou seja, mais de 460 mil vidas de brasileiros e brasileiras perdidas? E se em todo esse contexto, o deboche, o sarcasmo, a ironia continuarem sendo as principais formas desse presidente se expressar quando fala em pandemia? E se ele permanece insensível às perdas, às dores e às mortes (afinal “todo mundo morre um dia”)... o que fazemos? Esperamos mais 600x? Esperamos por um golpe? Esperamos o quê?